Pular para o conteúdo principal

Leia o manifesto da 7ª Bienal da UNE: “Brasil no estandarte, o samba é meu combate”

“Se o poeta avisou
Que tem fim felicidade
Quero o rastro da passista
Vou na esteira de quem sabe
De quem vira a fantasia
E nos avessos da cidade
Vence sol ou chuva fria
Porque o samba é o combate”

E essa tal felicidade do povo brasileiro? Essa capacidade de transcender sobre o peso que pesa, de se iluminar sobre a dor que dói, de não esmorecer na batalha e fazer carnaval? E esse samba desse povo, que ninguém sabe se é alegre ou se é triste, que se entrega na noite mas se fortalece é no dia após dia, que lava alma de quem dele precisa? E esse país que ainda não raiou? Há quem diga que o samba é seu mal, a expressão preguiçosa de uma gente a quem não cabe muito celebrar nem antes nem depois da quarta-feira de cinzas. Seria o samba um falso remédio, um colírio ludibriante, um engano em compasso de dois por quatro?
Pra cima de mim não! O samba não tem erro e de malandro faz gigante. O samba é o recurso de quem não pode e se sacode, quem levanta, bate a poeira e dá voltas por cima do próprio destino. O samba é de quem sabe. Se viver é uma cruzada, a alegria é o estandarte, tamborim é a fé cega, o tantan a humildade, cavaquinho é luz de cima, o surdão toda vontade de o pandeiro dar o ritmo pra canção virar verdade.
Muito mais do que música, samba é o jeito de viver, gingar, pensar e decidir as coisas nesse pedaço de vastidão da América do Sul. É o traço de brasilidade que agrega toda a cultura nacional em sua complexidade e jogo de cintura. De que é feito o samba perguntam-se desde antropólogos como Hermano Viana o livro “O Mistério do Samba” até roqueiros convertidos como Marcelo Camelo em seu “Samba a Dois”, bem conhecido com o grupo Los Hermanos.
A União Nacional dos Estudantes (UNE), uma das mais antigas e marcantes instituições da sociedade brasileira, mergulha no universo do samba em sua 7ª Bienal com o tema: “Brasil no estandarte, o samba é meu combate”. A UNE, em um grandioso evento de oito dias e mais de 60 mil estudantes no Rio de Janeiro, deixa-se provocar e enfrenta a incômoda teoria de que o samba e a felicidade do povo brasileiro são inférteis. A Bienal abandona, corajosamente, o medo de que o Brasil termine em um imenso carnaval, sem prazo para a última batida. Juntos, os estudantes brasileiros mostrarão que ser feliz também é o combate.
Do ponto de vista conceitual e estético, fazer um samba na Bienal é promover um grande desfile da diversidade, baseado no aplauso e no improviso. Uma grande roda de bamba onde se entra o tempo todo em um ticuntum de idéias, tecnologias, saberes e fazeres. A escolha do samba para o evento permite a quebra sincopada das estruturas hierárquicas do conhecimento, dando lugar ao coletivo e à contribuição de cada um e sua caixinha de fósforos. O fascínio um tanto místico que move uma escola na passarela, que leva um país a cantar junto, é replicado, entre a juventude brasileira da Bienal da UNE, em uma onda de motivação e práticas solidárias que se multiplicarão para muito além do evento, porque todo samba é de combate.
A 7ª Bienal representa um amadurecido trajeto em busca dos fundamentos basais da identidade nacional brasileira. Ao longo de 11 anos, as bienais pautaram a herança africana na cultura do país, os vínculos do Brasil com a América Latina, a cultura popular e as raízes de formação do Brasil. O samba aparece, naturalmente, em meio a esse caminho, sintetizando um pouco de todas essas referências em uma manifestação que tornou-se, praticamente, sinônima de nação. Entendendo o momento histórico de crescimento do protagonismo internacional do Brasil, assim como da sua responsabilidade com a transmissão de valores positivos ao mundo, a Bienal da UNE recorre ao samba em sua dimensão complexa, festiva, crítica e redentora.
Em 2005, o samba de roda baiano foi incluído pela Unesco na lista dos Patrimônios da Humanidade. Em 2007, o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural do Brasil (IPHAN) definiu o samba como Patrimônio Nacional. A partir de um qualificado rol de convidados e mesas-redondas, grandes atrações culturais, assim como da transversalidade de linguagens como música, cinema, teatro, arte digital, literatura e artes visuais, a 7ª Bienal da UNE também consagra o samba como riqueza imaterial da sociedade brasileira, permeável para os mais diversos debates e propostas.
Do ponto de vista histórico e antropológico, a Bienal contribui para um resgate dessa manifestação, desde o século XIX, em cada uma das suas expressões, como a semba africana, a umbigada, o samba de roda, samba de terreiro, samba corrido, samba de gafieira, samba de breque, samba canção e a própria bossa nova ou o pagode. A partir de 1917 e daquele tido como o primeiro samba gravado – “Pelo telefone” de Donga e Mauro de Almeida – o samba passa também a constituir, por si, uma narrativa do desenvolvimento social e político do Brasil nos últimos 100 anos.
Segundo Hermano Viana, recorrendo à imagem de um possível encontro entre os intelectuais Gilberto Freire e Afonso Arinos com o músico Pixinguinha, o samba é alçado a símbolo da "identidade nacional" em um elaborado processo de intermediações sociais entre o povo e as elites. Freire recorta o Brasil de seu tempo, início do século XX, apresentando o mestiço como elemento síntese das coisas nacionais, em busca do viés definidor da autenticidade do país. Nesse momento, a capital do Brasil, o Rio de Janeiro, vivia grande influência da cultura estrangeira, notada nas reformas urbanas de Pereira Passos e no apogeu da "Belle Époque" francesa. Com a nova formação do estado brasileiro, pós revolução de 1930, firmou-se a construção de uma memória de identidade nacional elencando o samba como manifestação "genuinamente brasileira".
O samba da Bienal de 2011, revisitado e resignificado em uma cidade que se ensaia cosmopolita o bastante para receber, em 2014, a final da Copa do Mundo e, em 2016, os jogos olímpicos, é como a procura de um marco referencial da cultura brasileira. Adereçado de possibilidades e conexões como o samba-rock, a drum`n`bossa e as paradinhas do funk na bateria, o samba brasileiro tem grande contribuição a dar a outros povos mundiais. Prezando pelo alcance, a 7ª Bienal da UNE redistribui a nossa cultura, assumindo seus elementos de identidade na alteridade, miscigenação e antropofagismo cultural em direção a um novo grau civilizatório entre povos e nações que faça frente às constantes manifestação de intolerância, racismo e fundamentalismo pelo planeta. Isso vai dar samba

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Nota de Repúdio a Ação Truculenta da PM contra Estudantes e Professores da FTC

“Nunca mais o despotismo Regerá nossas ações Com tiranos não combinam Brasileiros corações”  (Hino da Bahia)             Na manhã da última terça feira (04/06) a sociedade baiana foi surpreendida com a notícia da violenta repressão da Polícia Militar e sua Tropa de Choque ao dispersar uma manifestação pacífica dos estudantes do curso de medicina da FTC, com bombas de efeito moral, sprays de pimenta e balas de borracha.  A União dos Estudantes da Bahia reafirma seu total repúdio a esta ação da Tropa de Choque do Estado da Bahia, se solidariza e coloca-se inteiramente a disposição dos estudantes, professores e funcionários vítimas da truculência da Tropa de Choque. Desde 2007 a Bahia vive um período de consolidação da democracia e amadurecimento do diálogo entre os movimentos sociais e o Governo do  Estado, mantendo sempre sua autonomia, de modo que na nossa avaliação é incompatível tal postura da Tr...

4° Congresso elege novo Presidente da UEB

Entre os dias 1 e 3 de julho na Universidade Estadual Santa Cruz, em Ilhéus que aconteceu 4º Congresso da UEB. União Estadual de Estudantes (UEE) da Bahia foi fundada em 1943 sempre muito representativa em 1965 a UEB foi posta na ilegalidade, mas continuou tendo atuação política. Anos depois após duras investidas da ditadura militar foi desativada e reconstruída em 2005. O congresso da UEB é etapa estadual para o congresso da UNE (CONUNE) que acontecerá em Goiânia-GO de 13 a 17 de Julho. A união dos estudantes da Bahia fez e faz parte das principais batalhas políticas no estado, como a luta pela construção da Petrobras, bem como o combate aos “anos de chumbo”. Grandes nomes do cenário político baiano e nacional construíram a trajetória da UEB, dentre eles Fernando Schmidt , Sidonio Palmeira, Maurício Brito Gaudenzi, Renato Rabelo, Oliveiros Guanais Aguiar, Carlos Alberto Caó, entre outros.  A UEB é hoje o centro do movimento estudantil na Bahia aglutinando em torno dela diver...

UNE Convoca Reunião da Diretoria Plena

Com o objetivo de discutir pontos relevantes das bandeiras de luta do movimento estudantil no Brasil e em cada região do país, a União Nacional dos Estudantes convoca a reunião de sua diretoria plena para os dias 7 e 8 de fevereiro, em São Paulo. Essa é a 2ª reunião do pleno realizada nesta gestão e deve contar com a participação de dirigentes de todos os estados brasileiros e apoio de diversas entidades ligadas ao movimento estudantil. A diretoria plena da UNE é composta por 85 integrantes, mas a reunião é aberta e qualquer estudante pode participar. “Gostaríamos de convidar os representantes de DCEs, DAs, CAs, federações e outras entidades. É interessante a participação de toda a rede do movimento para que possamos planejar de maneira democrática as próximas atividades da gestão. É um momento de muito entusiasmo e muita expectativa dos estudantes brasileiros”, ressaltou o presidente da UNE, Daniel Iliescu. A ocasião é importante, pois a diretoria plena da entidade se reúne...